Òbàrà Méjì

Ifá em Obara Meji:

O tempo nunca anda para trás.
É uma flecha indetectável que viaja em uma única direção.

Por isso, não adianta se lamentar pelo passado ou ficar de braços cruzados esperando que o futuro mude sozinho. O único território onde temos verdadeiro poder de transformação é o presente.

Ifá nos entrega uma verdade profunda neste ensinamento:

Muito lento para aqueles que esperam — quando permanecem na inação ou na reclamação.
Muito rápido para aqueles que temem — pois o medo paralisa e consome os dias.
Longo demais para aqueles que sofrem — quando se agarram à dor de ontem.
Muito curto para aqueles que se distraem — em alegrias passageiras.

Mas, para aqueles que amam, o tempo é eternidade.

Obara Meji nos lembra que o verdadeiro amor começa pelo respeito ao nosso próprio caminho e à nossa consciência. Amar o seu processo é se esforçar hoje, ter coragem de olhar para dentro e corrigir, no presente, tudo o que for necessário para que o amanhã seja melhor.

O ebó, a mudança de atitude e a evolução espiritual acontecem agora.
Não deixe para amanhã o passo que o seu destino está pedindo para dar hoje.


ÒBÀRÀ MÉJÌ
A CODORNA SABE TANTO QUE DORME NO CHÃO.

Dr. C. Enrique Orozco.

Este provérbio tem sido frequentemente interpretado como contendo uma contradição ou uma crítica: se a codorna sabe tanto, por que dorme no chão? Desta perspectiva, pareceria que todo o seu conhecimento não a ajudou a se elevar acima das suas circunstâncias e que, apesar da sua sabedoria, acabou condenada a permanecer no chão.

No entanto, esta interpretação ignora o verdadeiro significado do provérbio. Não questiona o que a codorna sabe, nem apresenta a sua vida terrestre como um castigo. Pelo contrário, elogia a sua capacidade de compreender as suas próprias circunstâncias, adaptar-se ao seu ambiente e desenvolver estratégias eficazes para garantir a sua sobrevivência.

A codorna não precisa de viver no topo das árvores para demonstrar a sua sabedoria. A sua inteligência manifesta-se precisamente no reconhecimento do lugar mais adequado à sua natureza, às suas capacidades e às necessidades do seu grupo. Devido ao seu tamanho, hábitos e alta capacidade reprodutiva, não seria prático para a codorna construir grandes ninhos nos galhos ou concentrar todos os seus filhotes em locais altos. Portanto, ela busca refúgio na vegetação, no solo ou ao redor de troncos caídos, onde pode se esconder, se movimentar e proteger seus filhotes com mais facilidade.

A tradição também destaca que as codornas se reúnem para descansar, formando círculos ou formações defensivas que lhes permitem proteger umas às outras. A segurança não depende exclusivamente de um indivíduo, mas do cuidado compartilhado. Cada uma ocupa uma posição dentro do grupo e todas participam, de uma forma ou de outra, da proteção coletiva.
Isso faz da codorna uma representação prática da responsabilidade comunitária: todos protegem e todos são protegidos.

Sua sabedoria não reside em escapar da terra, mas em saber viver nela. Ela não tenta se tornar outra ave ou imitar modos de vida que não correspondem à sua natureza. Ela reconhece suas condições reais e organiza sua existência de acordo com elas.

Aí reside a profundidade do provérbio.

Ser sábio não significa aspirar sempre aos cargos mais altos ou buscar constantemente o que os outros consideram superior. A verdadeira sabedoria reside em saber onde podemos viver melhor, quais são os nossos recursos, quais perigos devemos evitar e como devemos nos organizar para enfrentar as dificuldades.

A adaptação não é resignação. É inteligência aplicada.

A codorna não permanece no chão por falta de habilidades, mas porque encontrou ali um modo de vida compatível com as suas necessidades. A sua presença no chão não representa fracasso, inferioridade ou derrota. É uma decisão moldada pela experiência da espécie.
É por isso que o provérbio não diz: “Apesar de saber tanto, dorme no chão”. O que ele realmente nos convida a compreender é: “Precisamente porque sabe, dorme no chão”.

Ela sabe que a altura nem sempre oferece segurança.

Ela sabe que a exposição desnecessária pode ser perigosa.

Ela sabe que nem todas as espécies sobrevivem da mesma maneira.

Ela sabe que o bem-estar coletivo requer cooperação.

A codorna sabe que proteger os mais vulneráveis ​​é responsabilidade de todos. Sabe que adaptar-se ao ambiente é mais sábio do que lutar contra a própria natureza simplesmente para parecer importante.

Essa lição pode ser aplicada diretamente à vida humana. Muitas pessoas fracassam porque aspiram a ocupar posições que não correspondem às suas circunstâncias reais. Elas se esforçam para viver como os outros, para fingir ser algo que não são ou para alcançar posições para as quais ainda não estão preparadas. Confundem crescimento com altura, sucesso com ostentação e reconhecimento com segurança.

A codorna nos ensina algo diferente: não precisamos viver no topo das árvores para provar nosso valor. Às vezes, a maior sabedoria reside em construir uma vida estável e segura, compatível com nossas capacidades.
Ela também ensina que a proteção individual muitas vezes depende da organização coletiva. Quando uma comunidade entende que a segurança de um afeta a segurança de todos, ela deixa de agir como uma coleção de indivíduos isolados e passa a funcionar como um verdadeiro corpo social.

Nesse sentido, o círculo de codornas constitui uma poderosa imagem de solidariedade. Nenhuma codorna sozinha é responsável por vigiar perpetuamente enquanto as outras descansam. A responsabilidade circula, é compartilhada e renovada. Cada membro tem um dever para com a comunidade, porque cada membro também precisa dela.

Òbàrà Méjì nos convida, portanto, a reconhecer que a sabedoria nem sempre transforma o ambiente; às vezes, ela nos ensina a nos relacionarmos melhor com ele. Nem sempre elimina os perigos, mas nos ajuda a nos organizar para enfrentá-los. Nem sempre nos leva para cima, mas pode nos colocar exatamente onde precisamos estar.

A codorna não foi condenada à terra por saber demais. Seu conhecimento lhe permitiu…

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