Òkànràn Òsá

Okana Sa

“Com a verdade se vence.”
“A confiança que você inspira hoje é a abundância que a vida lhe devolverá amanhã.”

“Quem permanece honesto na necessidade será digno da prosperidade.”


Ifa em Okanransa:

A COBRA RECUSA-SE A SERVIR DE CORDA PARA AMARRAR LENHA

Ọ̀kàn-Sáà, o Bàbáláwo da Cobra, consultou Ifá para ela quando seguia por um caminho no qual era constantemente apanhada e utilizada como corda para amarrar feixes de lenha.

Naquele tempo antigo, a cobra ainda não era temida pelos seres humanos. Sempre que alguém terminava de reunir a madeira, procurava uma cobra para envolver e prender o feixe. Caso não encontrasse nenhuma, permanecia à espera, pois não desejava transportar a lenha sem utilizar uma cobra como amarra.

Essa humilhação tornou-se possível porque, naquela época, a cobra possuía boca, mas ainda não tinha dentes. Incapaz de defender-se, era agarrada, esticada e tratada como simples objeto. Depois de suportar por muito tempo o desprezo e os abusos das pessoas, a cobra decidiu procurar os sacerdotes de Ifá.

Diante deles, perguntou:

— O que devo fazer para que os seres humanos deixem de me usar como corda para amarrar lenha?

Os sacerdotes consultaram Ifá e revelaram que ela deveria realizar ẹbọ. Em seguida, enumeraram todos os elementos necessários para o sacrifício. Entre os materiais prescritos encontravam-se dez agulhas.

A cobra reuniu tudo aquilo que lhe havia sido determinado e realizou o ẹbọ exatamente como fora orientada.

Durante o trabalho ritual, os sacerdotes utilizaram as dez agulhas, colocaram-nas simbolicamente em sua boca e depositaram Àṣẹ sobre ela. Foi assim que a cobra recebeu os dentes e o veneno que lhe permitiriam defender a própria existência.

Depois de receber sua nova autoridade, a cobra declarou com firmeza:

— Ninguém deverá voltar a utilizar-me para amarrar lenha. Que cada pessoa procure sua própria corda.

Entretanto, alguns ainda não acreditavam em sua transformação.

Quando uma pessoa terminou de reunir a madeira e tentou segurar a cobra contra o chão para utilizá-la como amarra, ela imediatamente a mordeu com os dentes que acabara de receber.

Pouco depois, uma segunda pessoa tentou fazer o mesmo e também foi mordida.

A notícia de seu novo poder espalhou-se rapidamente por toda a cidade:

— Não coloquem mais as mãos sobre a cobra! Ela agora possui dentes e veneno!

A partir daquele momento, ninguém voltou a utilizá-la como corda. Quando as pessoas percebiam que estavam prestes a cruzar com uma cobra pelo caminho, afastavam-se e lhe davam passagem.

Aquela que antes era apanhada, esticada e humilhada passou a ser respeitada por todos.

Que Èṣù não nos conduza ao encontro da cobra.

Explicação:

Esta narrativa procede do Odù Ọ̀kànràn-Òsá.

O ensinamento mostra que uma pessoa pode permanecer vulnerável enquanto não possui os recursos necessários para defender sua dignidade. A realização correta do ẹbọ permitiu que a cobra deixasse de ser tratada como objeto e adquirisse a força necessária para estabelecer limites.

A história também adverte que a humilhação prolongada pode conduzir aquele que sofre à busca de instrumentos de proteção. Quem se acostuma a abusar do indefeso poderá não reconhecer o momento em que ele recebeu autoridade para reagir.

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